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coisas de sempre

Há dias, raros agora, em que me apetece escrever, em que escrever é uma necessidade, em que perder-me no vazio que há em mim pode ser.

Penso nas coisas de sempre, que são sempre, até deixarem de ser. penso em domingos, para mim domingos são dias de national geographic e torradas e café e filmes de domingo à tarde debaixo da manta, mesmo quando os domingos já não são nada disto. penso que sou um poço de nostalgia pelas coisas de sempre, mesmo quando não são para sempre. penso que um dia as coisas de sempre deixam de ser e quando as queremos de volta já não é domingo e há um mundo entre nós e os domingos. mas talvez nunca as queiramos de volta. talvez sem as coisas de sempre, domingos deixem de fazer sentido. penso nas coisas de sempre, que são sempre, até deixarem de ser… e de repente o vazio que há em mim inunda-se de lágrimas e percebo que só eu quero ainda esses domingos perdidos no que deixou de ser…

fora de mim

Hoje, quero deixar a memória fora de mim. Fechar os olhos e não te ver em formato história, como quando eu vestia amarelo e tu me sorrias do outro lado da mesa e eu te brilhava no olhar. Deixar a memória embrulhada em papel de seda num banco de jardim, sem saber de quando ríamos e discutíamos a Língua Portuguesa e chovia lá fora mas nós não sabíamos. Deixar a memória pousada na mesa de um café qualquer que nunca nos vai ouvir dizer que temos todo o tempo do mundo. Porque não temos.

Hoje, quero deixar a memória fora de mim e não saber por que sorriso me sorrio quando fecho os olhos e te encontro ali.

o mundo a cores

Escrevo-te de um futuro em que não estás. Escrevo-te a dizer que o mundo é amarelo e laranja e vermelho felicidade. Escrevo-te a dizer que preferia que fosse cor de rosa se isso significasse que tu estavas aqui. E ambos sabemos o quanto eu detesto cor de rosa.

sem chão

sabes quando o mundo é de repente pequenino e o chão te foge de debaixo dos pés? sabes quando há um silêncio ruído por preencher que não sabes traduzir em palavras mas que não te cabe dentro? sabes quando parece que o céu te vai colapsar nos ombros com a chuva que cai e te gela os sentidos quando nada há de ti para gelar? sabes o que é de repente saber todas as coisas que sabias antes de as saberes e teres que aceitá-las? sabes o que é querer dizer o universo e escrever um pontinho pequenino igual a um ponto final mas em versão miniatura? sabes o que é deixar o que queres dizer à esquerda desse ponto final e não deixares que os pés te tremam debaixo do chão que te fugiu? just wondering…

de deixar

deixar a nostalgia entrar e sabê-la de cor quando a noite é alta e a música me embala. sentir-me quieta no sorriso que te dou como se não estivesse aqui e só hoje estou mais aqui que até agora. sorrio-te em mim. deixar a nostalgia entrar e as palavras serem de si próprias nas pontas dos meus dedos e nos meus lábios que as desenham sem nunca as chegarem a dizer. fechar-me nesse mundinho pequeno que é recordar e encontrar todo o espaço do mundo na luz clara da minha imaginação. sorrio-te em mim. sorrio-me em mim. deixar a nostalgia entrar e sentir-me em casa. ler o tempo que passou escrito a ontem e gostar da cor sépia. não saber o que dizer e querer-te um bocadinho no recanto das histórias que a vida escreve a tinta invisível. deixar a nostalgia entrar e sorrir em mim.

constante

colour above

Às vezes, esqueço-me de olhar pra cima dentro de mim. Esqueço-me da companhia serena do meu moleskine e caneta preta. Esqueço-me desse pedacinho de mim que deixa a nostalgia correr livre e segura por todo um caderno de amanhãs. Outras vezes, somos inseparáveis. Fases. Como as estações, sempre umas a seguir às outras, constantes da vida.

sem som

Não escolhas as palavras no vazio do silêncio. Deixa o som ausente. Quietos. Nós e as palavras e o silêncio delas. Custa menos assim, só não sei o quê. O que não foi dito, talvez, esses raminhos de silêncio como flores cinzentas que não se oferecem. Quebrado. O silêncio. Foi. Estremeci, esquecida do barulho das vozes doces que não dizem nada, sem querer. Lembrá-las. O que podia ter sido. Como o café e os passeios na praia e as conversas sem assunto sobre todos os assuntos do mundo. O que podia ter sido nesse silêncio quebrado para nada. Não escolhas as palavras no vazio do silêncio, que elas escolheram ser sem som.

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