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do hoje

Durante anos, descobri-me e percebi-me nas palavras que me fugiam nuas por paginas e paginas de cadernos sem linhas cobertos a tinta preta. So assim eu. So assim um mundo de sentido onde tantas vezes não havia fio de meada.

E um dia, ha anos e anos, percebi-me uma tristeza que não tinha, revelada apenas nesses cadernos cobertos a tinta preta, pinguins gordinhos e amores perdidos. Nesse dia, que nunca foi um dia mas quer o estilo e o efeito que lhe chame assim, em jeito de epifania, fechei os cadernos e comecei a viver e a viver-me, feita de sol e aquele cheiro a maresia que faz felizes os filhos do mar e da costa portuguesa. Durou uns anos, a minha historia de amor com uma existência menos nostálgica e nada escrita, sem palavras que a recordem que não uns textos escritos em lingua universal sobre nada – qualidade que me assiste em mais idiomas – mas sem ponta da saudade lusa que me atormenta a alma desde S. Sebastiao. Ate hoje, de novo apenas e so em jeito figurado, que foge-me o tempo para agir aquando da vontade.

Hoje, nao ha cadernos, e que saudades tenho eu dos cadernos, tantas que haverá cadernos, so não hoje. Hoje, não ha cadernos mas ha o meu testar a vida, sem linhas e com palavras, nostálgicas e das outras, as que tem luz e rasgos de momentos felizes, como os que seguro com cuidado não fossem partir e entristecer-me a nostalgia para alem de si própria.

Tantos anos depois, eu a descobrir-me e a perceber-me nas palavras que me fogem em trajes menores por um ecra de luz. So assim eu, na minha nostalgia feliz.

*sem acentos nem acordo ortografico, os primeiros por ausencia de meios, o segundo por ausencia de vontade.
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nunca só

Há muitos anos atrás, tantos que se eu soubesse fingir diria que lhes perdi o número, apaixonei-me. Apaixonei-me com a inocência de quem não sabe o que isso é e com a vontade de quem acredita (até hoje) que o amor muda o mundo, quanto mais não seja o nosso. E mudou. Mudou tudo. Mudou-me a mim.

Hoje, tantos anos depois, a lembrança desse amor que foi ampara-me ainda os dias cor de cinza, até o sol me encontrar. Há qualquer coisa que nunca se esquece (que nunca esqueci eu?) sem que nunca se lembre por completo, uma memória feliz ainda que já sem imagem que nos embala ate as lagrimas não serem mais.

Nunca só, desde então. Desde o dia, aquele dia, em que tudo mudou. Sobretudo eu. Talvez só eu.

quando

E foi naquele instante em que eu disse mais decoro e tu te riste. Naquele instante. O instante que reinventou horas de conversa sobre nada e esfumou anos, tantos que se quisesse lhes tinha perdido a conta. Mas nao perdi. Perdi o instante, em vez da conta. Mas encontrei a memoria de todos os outros instantes onde este acordou.

dias assim

dias em que o tempo se arrasta e os minutos mais do que contam a dobrar. dias em que a saudade aperta e te bate e pontapeia sem que consigas pará-la. dias em que te agarras com força a absolutamente nada e deixas as lágrimas descerem quando querem. dias em que finalmente vais dormir cedo porque a exaustão permite.

ler-me

O que mais gosto em mim é saber-me.

Aos poucos vou-me encontrando. Aos poucos vou-me escrevendo.

regressar…

Aqui.
Estou aqui.

Dizem que regressamos sempre aos lugares onde fomos felizes… não sei se fui feliz aqui, mas sei que ter este espaço me faz feliz.

A minha escrita e’, quase sempre, triste. As vezes também nostálgica, outras so’ triste. E e’ o meu modo de lidar com o mundo, de processar informação, de gerir emoções que não entendo, de viver a vida quando a vida me abana.

Nao pensei voltar aqui. Ingenuamente, pensei não precisar mais de escrever sobre o nada para apreender o tudo. Ingenuamente.

‘A data de hoje, o meu instinto mais urgente e’ escrever. Escrever frases sem nexo, vestidas de dor e nuas de nada. Escrever dos dias sem chao e sem alma. Escrever das lagrimas que choro e das que nao me saem. Escrever e curar esta dor que nada mais aplaca.

‘A data de hoje, a primeira sensação de paz. Aqui. Aqui me encontro quando não me reconheço em mais lado nenhum. Aqui. Eu.

coisas de sempre

Há dias, raros agora, em que me apetece escrever, em que escrever é uma necessidade, em que perder-me no vazio que há em mim pode ser.

Penso nas coisas de sempre, que são sempre, até deixarem de ser. penso em domingos, para mim domingos são dias de national geographic e torradas e café e filmes de domingo à tarde debaixo da manta, mesmo quando os domingos já não são nada disto. penso que sou um poço de nostalgia pelas coisas de sempre, mesmo quando não são para sempre. penso que um dia as coisas de sempre deixam de ser e quando as queremos de volta já não é domingo e há um mundo entre nós e os domingos. mas talvez nunca as queiramos de volta. talvez sem as coisas de sempre, domingos deixem de fazer sentido. penso nas coisas de sempre, que são sempre, até deixarem de ser… e de repente o vazio que há em mim inunda-se de lágrimas e percebo que só eu quero ainda esses domingos perdidos no que deixou de ser…