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nunca só

Há muitos anos atrás, tantos que se eu soubesse fingir diria que lhes perdi o número, apaixonei-me. Apaixonei-me com a inocência de quem não sabe o que isso é e com a vontade de quem acredita (até hoje) que o amor muda o mundo, quanto mais não seja o nosso. E mudou. Mudou tudo. Mudou-me a mim.

Hoje, tantos anos depois, a lembrança desse amor que foi ampara-me ainda os dias cor de cinza, até o sol me encontrar. Há qualquer coisa que nunca se esquece (que nunca esqueci eu?) sem que nunca se lembre por completo, uma memória feliz ainda que já sem imagem que nos embala ate as lagrimas não serem mais.

Nunca só, desde então. Desde o dia, aquele dia, em que tudo mudou. Sobretudo eu. Talvez só eu.

quando

E foi naquele instante em que eu disse mais decoro e tu te riste. Naquele instante. O instante que reinventou horas de conversa sobre nada e esfumou anos, tantos que se quisesse lhes tinha perdido a conta. Mas nao perdi. Perdi o instante, em vez da conta. Mas encontrei a memoria de todos os outros instantes onde este acordou.

dias assim

dias em que o tempo se arrasta e os minutos mais do que contam a dobrar. dias em que a saudade aperta e te bate e pontapeia sem que consigas pará-la. dias em que te agarras com força a absolutamente nada e deixas as lágrimas descerem quando querem. dias em que finalmente vais dormir cedo porque a exaustão permite.

ler-me

O que mais gosto em mim é saber-me.

Aos poucos vou-me encontrando. Aos poucos vou-me escrevendo.

regressar…

Aqui.
Estou aqui.

Dizem que regressamos sempre aos lugares onde fomos felizes… não sei se fui feliz aqui, mas sei que ter este espaço me faz feliz.

A minha escrita e’, quase sempre, triste. As vezes também nostálgica, outras so’ triste. E e’ o meu modo de lidar com o mundo, de processar informação, de gerir emoções que não entendo, de viver a vida quando a vida me abana.

Nao pensei voltar aqui. Ingenuamente, pensei não precisar mais de escrever sobre o nada para apreender o tudo. Ingenuamente.

‘A data de hoje, o meu instinto mais urgente e’ escrever. Escrever frases sem nexo, vestidas de dor e nuas de nada. Escrever dos dias sem chao e sem alma. Escrever das lagrimas que choro e das que nao me saem. Escrever e curar esta dor que nada mais aplaca.

‘A data de hoje, a primeira sensação de paz. Aqui. Aqui me encontro quando não me reconheço em mais lado nenhum. Aqui. Eu.

coisas de sempre

Há dias, raros agora, em que me apetece escrever, em que escrever é uma necessidade, em que perder-me no vazio que há em mim pode ser.

Penso nas coisas de sempre, que são sempre, até deixarem de ser. penso em domingos, para mim domingos são dias de national geographic e torradas e café e filmes de domingo à tarde debaixo da manta, mesmo quando os domingos já não são nada disto. penso que sou um poço de nostalgia pelas coisas de sempre, mesmo quando não são para sempre. penso que um dia as coisas de sempre deixam de ser e quando as queremos de volta já não é domingo e há um mundo entre nós e os domingos. mas talvez nunca as queiramos de volta. talvez sem as coisas de sempre, domingos deixem de fazer sentido. penso nas coisas de sempre, que são sempre, até deixarem de ser… e de repente o vazio que há em mim inunda-se de lágrimas e percebo que só eu quero ainda esses domingos perdidos no que deixou de ser…

fora de mim

Hoje, quero deixar a memória fora de mim. Fechar os olhos e não te ver em formato história, como quando eu vestia amarelo e tu me sorrias do outro lado da mesa e eu te brilhava no olhar. Deixar a memória embrulhada em papel de seda num banco de jardim, sem saber de quando ríamos e discutíamos a Língua Portuguesa e chovia lá fora mas nós não sabíamos. Deixar a memória pousada na mesa de um café qualquer que nunca nos vai ouvir dizer que temos todo o tempo do mundo. Porque não temos.

Hoje, quero deixar a memória fora de mim e não saber por que sorriso me sorrio quando fecho os olhos e te encontro ali.

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