
De ti, recordo primeiro o papagaio. Eu era pequena, catraia como dizem por aí, e tu eras a única pessoa que eu conhecia que tinha um papagaio. Não tinha conversa de crianças, o papagaio, antes soltava uma torrente de palavrões e impropérios. E nós ríamos, tu inchado de orgulho, porque tinhas sido um bom professor, dizias-me. Depois davas-me a mão e ensinavas-me a fazer-lhe festas.
Doce, de tão rude, tinhas a pele escura curtida pelo sol, e rugas de expressão tão vincadas, que me parecias um índio, velho e sábio. Só que ainda não eras velho, quando eu era catraia e te dava a mão para me levares a ver os cães maiores que eu, e a vaca, a única vaca do curral. Não, não eras velho, mais uns anos que o meu pai. Talvez fosse a responsabilidade de ser o mais velho dos primos, aquele que leva os mais novos nas aventuras e traquinices mais mirabolantes, contava o meu pai, que te amadureceu mais cedo. E talvez esse mesmo fardo tenha contribuído para o perpetuar do teu riso infantil, que nos aproximava tanto.
A última vez que te vi, há um ano, era eu já tão adulta como tu, anos volvidos desde o último encontro, estavas velho. Não o índio da minha infância, um velho diferente, um velho que eu queria abraçar para procurar a imponência do homem que me dava a mão e levava a passear de tractor, tantos anos antes.
Lembro-me de pensar que tinha que vir mais vezes, ao teu reduto na aldeia, onde as pessoas ainda são conhecidas pelo nome da quinta onde vivem.
Pensei que não podiam passar tantos anos. E não passaram. Morreste hoje.
Foto: Mourning de Scott Wills





Deixe uma Resposta