Cada vez que recordamos alguma coisa, estamos na realidade a recordar a última vez que o recordámos, pois a memória não vai à marca original, à primeira coisa que s egravou, mas sim à última. A memória dos seres humanos é virtual, como a dos computadores. Ao abrir um arquivo não estamos a abrir o que era quando o criámos pela primeira vez, mas sim o que ficou da última vez que o usámos. Chama-se hipercatesia. É o recurso mais sofisticado do nosso cérebro contra a dor. Surpreende-nos amiúde a fortaleza de algumas pessoas, o instinto que lhes permite sobreviver a situações tremendas, refazer a vida (…). Não é que a sua memória apague a fonte da dor. O que faz é diferi-la, interpor-se, oferecer à pessoa uma lembrança que já não é a da dor, mas sim a dela própria.
Enrique de Hériz





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