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eu não deixei

Procura-me nas horas em que não estou, não te falharei nunca. Deixa-me quieta a ver o vento passar por nós como se não estivéramos ali, porque não estamos. Deixa silentes os dias em que o tempo corre, que o passar do tempo é vida por preencher. Deixa que não agarremos a urgência do hoje e o sabor doce do beijo em plural, que amanhã não saberemos do que não foi. Deixa que tenhamos o que imaginar e desenhar de nós para nós nos dias todos em que não tivermos de nós memória. Deixa. Tu. Porque eu não deixei nunca e não sei viver assim.

de dentro

Fala-me da nostalgia das coisas que nunca foram em murmúrios quietos que nunca serão.
Descreve-me o mundo em palavras tacteadas e hábito e descoberta que as saiba eu ler na ponta dos dedos.

deixar

O que guardas de hoje? O teu sorriso numa folha de papel creme, igual à do caderno em espiral que fazia parte de mim como tu e a nostalgia dos teus olhos doces. Só isso? Tudo o que não eras tu que me levava até ti, como as borboletas na barriga e a chuva na cidade velha com croissants miniatura e creme. Mais nada? Os iogurtes que compraste porque eram iguais aos que eu tinha só que não e que eu comi sem gostar porque vi o teu sorriso de ideia genial e sorri eu nele. Deixas-me aqui? Hoje sim, na casa fria de janelas altas que só hoje lembro gelada, tem graça, logo hoje que te deixo aí.

gone

DMB – Grace is gone

Pulga

Pulga

Setembro 1997 – Março 2011

 

Um dia, até os duros se vão… ontem foi um desses dias e despedimo-nos da Pulga.

A Pulga chegou a nossa casa em Setembro de 1997. O nome é indicativo do tamanho minúsculo quando a encontrámos, sentada num muro, encharcada, com os olhos cobertos de muco (num permaneceu uma névoa e nunca recuperou a visão) e as orelhas em ferida (não é de raça especial, a ponta das orelhas caiu de podre…). Precisava de cuidados constantes, comida e mimo. Tomou medicamentos de 3 em 3 horas durante 3 semanas; eu fiquei com o turno da noite. Trepávamo-nos pelas calças acima sem que a sentíssemos e dava-nos uma dentadinha quando a nossa mão se passava pelos bolsos. Dormia nas gavetas porque tinham uma abertura ligeira para abrir e passávamos horas a procurá-la. Dormia na cama enorme da cadela que a adoptou e que calmamente se resignava a olhá-la de fora com ar enternecedor. Gostava muito mais da cadela do que de qualquer um de nós. Pedia festas e quando se aborrecia mordia. Detestava estranhos e veterinários e fazia-lhes a vida negra se tentavam tocar-lhe. Era um doce quando queria, um presente que nos ofertava em mimo. No primeiro verão lá em casa, trazia-me um animal morto à porta do quarto todas as manhãs (era só do terraço, a fauna não se renovou ao ritmo dela). Não gostava de mais nenhum gato a não ser do Tigre, o primeiro animal que tivémos e que lhe era senior; quando ele morreu, ela atirou-se do terraço 3 vezes seguidas. Quando se tornou a gata mais velha da casa, gostava de dormir com o meu irmão. Apenas. Adorava subir a estantes e deitar objectos ao chão para os ver cair. Trepar cortinas era um passatempo apreciado. Era elegante e doce e divertida e compensou todos os estragos que fez. Tenho saudades dela. Muitas. Daquelas que causam lágrimas porque desta vez o adeus é para sempre. Gosto de pensar que foi feliz. A mim, fez-me uma pessoa melhor e sem dúvida muito, mas muito mais feliz.

de ser feliz

O melhor que os meus Pais alguma vez me deram foi o meu irmão. Por isso, nunca lhes poderei agradecer o suficiente. Sou, de facto, a irmã mais feliz.

eu às vezes…

…passeio-me por outras paragens… até ver…!

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