Há dias, raros agora, em que me apetece escrever, em que escrever é uma necessidade, em que perder-me no vazio que há em mim pode ser.
Penso nas coisas de sempre, que são sempre, até deixarem de ser. penso em domingos, para mim domingos são dias de national geographic e torradas e café e filmes de domingo à tarde debaixo da manta, mesmo quando os domingos já não são nada disto. penso que sou um poço de nostalgia pelas coisas de sempre, mesmo quando não são para sempre. penso que um dia as coisas de sempre deixam de ser e quando as queremos de volta já não é domingo e há um mundo entre nós e os domingos. mas talvez nunca as queiramos de volta. talvez sem as coisas de sempre, domingos deixem de fazer sentido. penso nas coisas de sempre, que são sempre, até deixarem de ser… e de repente o vazio que há em mim inunda-se de lágrimas e percebo que só eu quero ainda esses domingos perdidos no que deixou de ser…





também gosto dos domingos,
não é apenas você.
e gosto das coisas de domingo,
mesmo quando deixam de ser
domingos são para nós
e os outros dias para os demais.
perder um domingo a fazer coisas para os outros
é como escrever uma carta que não será lida jamais.
a menos que não escrevamos a esmo.
a menos que o que estejamos fazendo
tenha a intenção de alguém cujo bem
traz alegria a nós mesmos.
gosto de domingos que já não são mais,
e quero os domingos de outrora compartilhados.
já não vejo mais graça em só planejar.
já não vejo mais graça naqueles domingos lembrados.
domingos são dias únicos
mas não são para vivermos separados.
domingos são dias lúdicos
onde descansam juntos os corações apaixonados.
quero meus domingos ao teu lado!
É bom ler-te, cientista-poeta…
O domingo é o dia em que tudo acaba, e algo novo começa. A semana que se acumulou termina na noite de sábado, e no domingo uma espécie de paz nostálgica invade-nos. Talvez mesmo uma solidấo ancestral, que nos recorda que o ritmo da vida que vivemos é rápido e efémero, e que os domingos sempre estarấo aquí para nos recordar isso. Domingo é o dia em que as memorias de outros dias nos invadem, porque ao domingo a voragem da vida descansa e as vidas que vivemos em tempos, noutros lugares, ganham vida de novo, na nossa memoria, nos nossos gestos, nos nossos confortos. Pensamos em pessoas em que nấo recordamos no resto da semana, cozinhamos coisas que comíamos noutras idades e noutros países, resguardamo-nos na manta quentinha ou nos filmes domingueiros ou nas esplanadas soalheiras. E no dia seguinte tudo volta ao mesmo, o ritmo, os cinco ou seis idiomas que falamos, as dezenas de pessoas com quem convivemos, as curtas alegrías e os problemas duros dos quotidianos. Ao domingo somos nós mas também somos todos os nós que fomos antes. Os domingos nấo sấo tristes. Sấo só uma pausa na vertigem da vida, para que nos apercebamos da soma de tudo o que somos até agora e decidamos quem queremos ser nos domingos que nos restam da vida.